
Carta deixada no bolso de um casaco velho esquecido no metrô. Paris, três horas.
“Não pretendo tomar muito de seu tempo e nem reter muito a sua atenção. Não quero atrapalhar você e nem me atrapalhar. Não gostaria de ficar presa em algum lugar — se duvidar, à alguém — por muito tempo. Não consigo manter o que eu sinto. Não pretendo destruir você antes de destruir à mim mesma. Mas é que eu me sentia completa, sabe? Sabia que você me completava. Só que não é a mesma coisa. Nada é a mesma coisa. Aquela coisa que a gente sentia. Sabe? Que você dizia que era amor. Lembra? Não era amor, não. Era só… Uma coisa. Nada demais. Só que você falava que me amava, mesmo não me amando e não sentindo nada por mim. Quero dizer, acho eu. Acho que não vai fazer muita diferença pra você ler isso, mas faz diferença pra mim. Escrever isso está sendo difícil. Só imagino em como será daqui pra frente. Mais separados do que nunca. Já não bastava você se distanciar de mim. Simbolicamente falando, é claro. Agora, com a distância física, não imagino se será melhor ou pior. É que eu já sentia os seus beijos frios. Seus olhares distantes. Seus abraços não eram mais quentes como antes. Aquelas suas frases românticas não eram mais ditas. Seus “eu te amo” diários passaram a ser semanais, mensais, semestrais. Não ouço mais você dizer que me ama. E, então, eu me pergunto: vai fazer diferença? Você vai se sentir tão incompleto quanto eu? Pretendo não saber da sua resposta. Digo, não te ver mais depois da minha ida. Sei que não é digna de um adeus, tampouco de um sentirei sua falta. Mas eu precisava. Precisava te deixar ciente dos meus motivos. Motivos esses que me fizeram desistir de você… De nós. Não te culpo. Deveria, mas não culpo. Poderia te dar mais uma daquelas desculpas esfarrapas de que “o problema não é com você, é comigo”, mas não adiantaria, eu estaria mentindo pra mim também. Estaria corroendo mais. Então só peço que não me falte, não me procure. Peço que me exclua da sua vida, que use até um amaciante menos barato e tire o meu cheiro dos teus lençóis, se bem que eles não têm mais o meu cheiro faz tempo. Vou continuar, mas ainda assim serei carente de você. Querendo-te o tempo todo. Isso não mudará. Nós não mudaremos. Então, não me procure, tratei de ir para o mais longe possível. Quem sabe assim, tu te distancies de mim mais rápido. Afinal, nunca foi o que esperava. Nunca me deu a atenção devida, sempre esteve aqui e longe ao mesmo tempo. Não espero mais nada de ti. Adeus. E, ah… o meu trem passa as quatro.” Fernanda Morais e Laís (mentes-expostas)
Carta deixada no bolso de um casaco velho esquecido no metrô. Paris, três horas. “Não pretendo tomar muito de seu tempo...